De uma forma ou de outra, cada pessoa acaba levando a sua vida. O que define a sua vida são as suas escolhas e cada escolha vai diminuindo as possibilidades no futuro. A Antroposofia fala da trimembração do homem em corpo alma e espírito e também das faculdades que pensar querer e sentir. Toda essa questão das analogias entre números e as proporções e relações do mundo são características de várias linhas de pensamento e eu mesmo não sou o maior conhecedor disso. Sentir parece ser uma coisa pré-determinada pelo meio externo, já que depende dos dados - mesmo considerando-se que as imagens suscitadas nos sujeitos sejam diferentes. O pensar também parece ter uma lógica bastante previsível, de forma que o pensamento unifica e faz as pessoas discutirem até chegarem num acordo (que, se não for o exato, é o melhor disponível).
No entanto o querer parece muito misterioso. De onde surge nossa vontade? Temos uma vontade nossa? Somos seres livres? Essas são questões que muitos levantam e geram muita polêmica por aí. O que eu sei é o seguinte: pela vontade se entendem os atos. Por exemplo, na história é muito mais interessante tentar descobrir qual era a intenção e motivação do que o fato bruto. E aí surge o termo alemão (condizente com seu espírito) "Weltasnschauung", equivalente a cosmovisão: quem tem uma cosmo visão, orienta todo ato de sua vida por ela.
No curso de engenharia que eu fiz o professor costumava dizer que não fazer nada também é um planejamento: é uma das escolhas entre as possíveis. De uma forma ou de outra, todo mundo acaba organizando a sua vida sob algum princípio, mesmo que seja a ausência de princípio. Uns são religiosos e querem a salvação; outros seguem os ventos e as marés da hora; outros gostam de curtir a vida; uns fazem do seu ofício o motivo de viver. Freud tem um texto sobre Weltanschauung que critica a visão religiosa e a dos ideólogos políticos e tenta os substituir por uma idolatria à ciência: ele comete o mesmo erro que acha desprezível.
Eu sou um dos mais desprezíveis, pois sigo a retrógrada Igreja Católica Romana. Eu ainda quero falar mais dessa questão da vontade sob o aspecto econômico (do valor) em outro texto. Aqui queria só falar da vontade como coisa misteriosa. Porque uns escolhem umas coisas e outros não? Será que existem bens universais e coisas que todos devem buscar? Ou não? Uns dizem ser melhor deixar cada um por si: não será isso uma evasão ao pensamento? A vontade dá força ao individuo para viver (e viver implica sentir o mundo, trocar com ele) e pede auxílio ao pensamento para otimizar seus fins.
Eu não quero chegar em nenhuma conclusão aqui. Eu só quero convidar à reflexão sobre a nossa vontade, que é quase a mesma reflexão sobre os nossos atos. Particularmente, eu acho que as pessoas devem se lapidar e isso implica que lapidar-se seja um bem universal. Aí alguém retruca: "lapidar pra quê"? Um ato completamente irrefletido se parece mais com o ato instintivo dos animais. E muitos dirão que o homem é só isso. Alguns estipulam metas imediatas (a ponto de não terem metas, mas vontades instantâneas), outros traçam um cronograma longo. Uns nem sequer têm metas: a meta concreta (como conseguir uma casa em 5 anos) seria algo muito rígido e seria preferível uma regra de conduta que norteasse cada ato instantâneo.
Uma coisa é certa: nascemos, vivemos e morremos. Nesse intervalo, todos os nossos atos são a adaptação das nossas vontades perante uma realidade indomável que resiste. Se muitos acreditam que basta passar de qualquer jeito: isso é uma Weltanschauung. Uma cosmovisão é mais fácil de se encontrar naquele que tem uma convicção e que quer fazer algo com muita vontade: certos religiosos, ideólogos, militantes, filósofos... Eu apenas gostaria de perguntar: qual a sua Weltanschauung?
BREVIS COGITATIO
Este Blog
Opiniões pessoais, reflexões.
Pensamentos sobre diversas questões da vida, com enfoque religioso, político e filosófico.
Aqui estão alguns textos que escreverei conforme a ocasião dê tema. Costumo falar de temas quaisquer sob uma perspectiva ampla e reflexiva. Embora se planeje ser breve, talvez nem sempre seja o caso.
Também serve mais como um sumário das minhas opiniões, mais para uso próprio e sistematização
Pensamentos sobre diversas questões da vida, com enfoque religioso, político e filosófico.
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Também serve mais como um sumário das minhas opiniões, mais para uso próprio e sistematização
segunda-feira, 21 de março de 2011
Questões sobre a vida humana
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Homossexualismo e demais condutas
Gostaria de dar uma curta visão do meu pensamento sobre esse assunto, tão em voga. Hoje as pessoas têm discutido bastante o assunto, sendo motivo de discussões acaloradas do mesmo nível das discussões políticas ou futebolísticas (principalmente se for o Corinthians ou Flamengo). E, como sempre, eu sinto a polarização da sociedade entre os retrógrados. Isso tem a ver com a minha primeira postagem. Muitas vezes vejo gente tentando ganhar no grito. Me vem a imagem dos atores que defendem a liberalização da maconha dizendo "já está na hora de discutirmos essa questão" - nesse caso, o "discutir" significa que os retrógrados têm de reconhecer que os modernos têm razão.
Serei estritamente parcial, mas claro. A conduta homossexual é condenada pelas religiões e inclusive para alguns que argumentam de acordo coma natureza (embora outros usem contra-exemplos da natureza também). Isso tudo pertence à esfera dos valores (pretendo escrever uma postagem só sobre valores) e os valores vão determinar as escolhas concretas dos indivíduos, que são as únicas coisas que existem - as idéias em voga numa sociedade não são mais do que sujeitos as praticando (elas não têm uma existência material).
Há pessoas que escolhem seguir determinadas religiões. Há aquelas que pegam só o que há de melhor em cada uma. Há os céticos completos (esses são poucos e niilistas). Há os céticos parciais, que se acham completamente céticos, mas ainda têm sua religiosidade embasada no "Deus ciência" ou noutro similar. Há os que estão abertos à doutrina que convencer melhor a sua razão, seu juiz universal. Há os materialistas convictos que defendem a imposição de suas idéias, já que a seleção natural não é da escolha do mais verdadeiro, mas do mais forte (o materialismo implica na ausência de valores).
Dados exemplos de visões, temos que as pessoas conduzem suas vidas de forma a não contradizerem a si próprias. Muito se fala em democracia ou em diversos valores políticos, em liberdade etc. Sem discutí-los, quero notar que muitos têm acusado a mera expressão contra o homossexualismo como algo homofóbico. É como se se dissesse algo contra essa conduta fosse incitar ao ódio. O PLC 122 não me deixar mentir, pois condena "qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica", como nos diz o jurista Paulo Medeiros Krause.
E ao invés de vermos os raivosos evangélicos e católicos, o que vemos é o contrário: o mero fato de não concordarem com o PLC 122 já suscita uma violência verbal sem precedentes. Vejam o que a mera discórdia fez nesses vídeos.
E ainda há esses vídeos com discussões sobre o assunto:
Como católico, vou defender essa visão específica, o que não impede a liberdade de consciência de todos. O catolicismo apresenta uma lista diversa de pecados e de determinações sobre o comportamento das pessoas. Isso vai desde o padre não poder casar até a não recomendação do uso da camisinha. Entra nesse debate também a questão de se há hierarquia entre os pecados. Já adianto que não falo em nome da Igreja, mas em meu mesmo (como alguém que quer se aproximar), pois eu sou leigo. Independente do grau de importância, ou do porquê, a Igreja condena o homossexualismo.
Eu queria, primeiro, falar como eu considero a questão dos pecados, que é uma espécie do gênero dos dogmas em geral, embora não numa definição precisa. O cristianismo tem o foco em Cristo, que a fé diz ser a encarnação de Deus para salvar os homens do fato de o pecado ter entrado no mundo e o homem, por si só, não poder com suas próprias forças e essência conseguir essa religação. Por um pecado, conheceu-se o bem e o mal. E é um conhecimento total, igual a conhecer uma mulher, em que se vive as diversas formas múltiplas do pecado. Nesse sentido, há lógica em dizer que não há hierarquia entre pecados, pois todos demonstram um desrespeito, uma falta de temor a Deus; e o maior tesouro para o cristão é a fé, não no sentido somente de crença, mas de confiança, de fidelidade (notem os radicais dessas palavras, já que fé vem de fido).
Entretanto, a cada escolha, uma pessoa escolhe uma coisa em detrimento do resto. A própria razão (como vemos no método científico), precisa fragmentar, excluir, abstrair para entender: não somos igual a Deus, que conhece tudo imediatamente (imediato é aquilo que não tem mediação). Para isso, temos a hierarquia, pois fazemos uma coisa antes da outra; uma pessoa tem uma função, que pressupõe a decisão de outra pessoa em outra função (hierarquicamente superior) etc. Assim, no nosso dia a dia, achamos pior alguém ser estuprado do que o cara que comeu mais alface na semana santa. Nós estabelecemos uma escala das coisas piores e das menos piores. Então, no meu ver, haveria duas perspectivas em relação ao pecado: uma de Deus que tudo vê e conhece na eternidade e outra dos homens que tomam decisões cotidianas nesse mundo de eventos contingentes e passageiros.
Então, vou comentar o homossexualismo tendo essa perspectiva de fundo, mas qualquer pecado poderia seguir a mesma linha de raciocínio. Na visão católica, cada coisa tem sua origem (natureza) e fim. A finalidade é o seu porquê, o motivo da existência, em que cada ser colabora para si e para o mundo (já que todas as coisas estão ligadas num fim conjunto, o universo tem um fim). O ser pode ser vários conjuntos desde a folha, passando pela árvore ou até chegando na floresta. O homem tem uma posição singular de semelhança com Deus, ele é o senhor de seus atos, ele mantém um pouco da liberdade total em suas ações - ele não é totalmente livre, pois a matéria o restringe, a vida tem seu ciclo, ele tem necessidades fisiológicas etc. E o homem pode ser dirigir a Deus buscando a sua maior faculdade, o amor - mas há uma amor num sentido superior, que não é o erótico, nem o de amizade, mas da caridade (de caritas, a entrega total de si).
E o homem pode demonstrar seu amor de várias formas: na natureza nos arredores, na sociedade em que vive ou na família que está. E uma forma muito singular de amar é na reprodução, pois assim um homem permite que o outro faça o mesmo: seja livre, possa existir e ame também. Há uma prorrogação da criação divina, continuada pelo homem (crescei e multiplicai). O homem concebe, dá amparo, dá sustento, até que um novo ser chegue à idade adulta. Fazemos a criação (à semelhança de Deus), mas numa escala infinitamente modesta. Mas o carinho, a caridade está lá. Por isso é que a Igreja Católica dá tanto valor ao sentido sagrado do sexo (que não deve apresentar o seu aspecto de paixão dos sentidos, o erótico), ao valor dos embriões, à negação do aborto.
Mantém-se o sentido do sagrado em qualquer ação humana, cada ação com seu fim. Qualquer desvio da função, sendo aproveitado para outra finalidade é a definição de corrupção. Claro que não devemos ser tão rígidos. Nessas horas devemos nos lembrar que o mal se traveste de bem e que o bem purifica e permeia o mal, que as ações humanas estão permeadas simultaneamente de mal e bem, que não é fácil distinguí-los na realidade. Muitas vezes uma pessoa se dispõe a uma ação que à primeira é imoral, mas que pode ser uma evolução no seu comportamento, pois sua educação e seu meio pode ter sido repleto das maiores violência (no sentido de violar a pureza). As pessoas, às vezes, estão enclausuradas pelas situações, forçadas ou escravizadas a agir de alguma forma. Pois cada corrupção escraviza mais o ser humano, pois dá espaço ao vício (que vicia!), à malícia. Quanto maiores os elos que prendem as pessoas aos seus atos iníquos, mais difícil é para a pessoa buscar a pureza de alma.
O que falar da pessoa que cai no caminho das drogas, daquela que tem tara sexual por crianças, daquela que está imersa nos laços da corrupção política, daquela que se humilhou na prostituição (e, por isso, tem uma repulsa social), daquele que rouba para comer? Cada um tem seus motivos para agir da forma que age e isso pode ser a contragosto. O pior é quando se deleita nessas situações, aí não tem jeito, porque é fruto de uma escolha premeditada pela malícia. Mas até essa última pode ser considerada fruto da ignorância, pois aquele que conhece verdadeiramente o bem, não se afastaria dele por qualquer opção que fosse.
Portanto, a postura com o homossexual é a mesma com relação a qualquer um que cometa esses pecados: há lá uma pessoa, que pode estar passando por dificuldades e que merece o nosso auxílio, caso deseje isso. Não se pode negar nada a quem pede. Mas o primeiro passo é o arrependimento verdadeiro, fruto da iniciativa livre da vontade do sujeito. Sem o arrependimento, o que se tem é hipocrisia. Isso para as pessoas que reconhecem os valores cristãos (o que acho que acontece com todas as religiões, principalmente nesse assunto).
Por fim, quero comentar uma última coisa. Há também aqueles que insistem na legitimidade da postura homossexual, a ponto de defender a conduta pareando com outras condutas tidas como lícitas e normais. E mais, há os que querem equiparar uma relação homossexual à heterossexual. Vou comentar este ponto e depois aquele. No sentido erótico, homossexualismo e heterossexualismo se equiparam, pois aí considera-se apenas a satisfações de paixões (sendo que uma delas é desviada para outro fim). Porém, no sentido da caridade, eles não se equiparam, pois a natureza da espécie prevê a relação heterossexual para perpetração da espécie. Na relação entre homem e mulher, há muito mais do que desejo. Há a continuidade da criação, novos homens são gerados, há uma relação de família por detrás, há o dualismo dos papéis de homem e de mulher (o que pode ser assunto de uma postagem inteira) - o homem com a postura agressiva, da busca do sustento, da defesa de agressões, da solidez da casa e a mulher mais passiva, com o afeto, o cuidado com a prole etc. Equiparar as duas coisas é negligenciar tudo isso. E é mais. Pois é a afirmação da malícia, o rebaixamento daquilo que é sagrado (pois equiparar homossexualismo e heterossexualismo e rebaixar o último), é ação persistente do mal.
Aí entro no segundo ponto, da ação do mal (o que também pode render postagem à parte). O mal é algo presente no mundo, vemos pessoas que o disseminam (o que na visão cristã é explicado pela ignorância, afastamento da verdade, escravidão) concretamente. Esse é o caso que muitos têm comentado recentemente. Trago à tona alguns artigos de Olavo de Carvalho, que tem discutido muito sobre assuntos nesse sentido. Os seus textos "A nova era e a revolução cultural" e "O jardim das aflições" atestam muito sobre o avanço das idéias que querem tomar espaço no cenário dos valores sociais, substituindo-os por outros que vão em direção oposta à liberdade. Nos seus artigos "A demolição das consciências", "Educando para a boiolice", "Conspiração de iniqüidades" e "Armas da liberdade" há comentários que ilustram todo esse contexto. Basicamente, o argumento básico é que os movimentos revolucionários, derrotados militarmente no passado, se revestiram de novas facetas para conseguir, por outros meios, a detenção do poder. Se a via armada falhara, então eles buscaram a corrupção dos valores como principal método contra a oposição mais sólida: as religiões.
Para sustentar a dignidade da postura homossexual (principalmente evitando/calando qualquer crítica), alguns argumentam não ser uma conduta, mas algo da essência (essência no materialismo significa genética). Aí, por analogia, não se poderia criticar o homossexualismo, assim como o fato de a pessoa ser negra. Uma postura isenta diria: "ora, não se pode provar ainda que seja ou não genético". Mas eu não me conformo e tenho uma posição. Explico com um exemplo hipotético. Imaginem no pré-natal o médico chega pra mãe e diz: "vai ser gay com órgãos de homem". A mãe, compreensiva, dá-lhe o tratamento devido, uma educação exemplar de gay (aí precisa se dirigir seu filho a Campinas, onde o pessoal é mais entendido). O filho cresce e descobre: "mas eu gosto é de mulher!" E aí? No RG vai constar: gay. Vai ter que fazer uma cirurgia de mudança de sexo, de gay para homem?
E, argumentando ser algo inerente à personalidade, não querem que se fale nada contra eles. Como foi dito acima, "qualquer tipo de ação vexatória". Piada de bêbado, português, padre, loira, japonês... tudo pode! Menos piada de gay, pois aí é assunto sacro para o estado. O ridículo dessa situação parece patente, mas muitas pessoas agem de forma que preciso sempre explicitar esse ponto de vista. E nem sempre funciona. Bem, enquanto for permitido falar, falaremos. Se for proibido, apenas pensaremos. Tomara que não inventem alguma espécie de controle neurológico, pois seria aplicado com certeza no Brasil.
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domingo, 28 de novembro de 2010
ex fructibus eorum cognoscetis eos (Mt 7, 20)
Como primeira postagem, começarei refletindo sobre as eleições que se passaram no Brasil. Na verdade é um fato que apenas motiva a discussão. Essas eleições são motivo de várias reflexões, é possível puxar um tema e deslanchar. Pois esse assunto vai desde o fato de que há alguns que reduzem toda a vida humana à política. Há as questões sobre a hipocrisia e com ela me lembro da citação que meu professor fez que "a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude". Eu poderia discutir a formação dos valores numa pessoa, que assimila diversas experiências na vida até chegar ao ponto atual, em que vemos que a formação de seus valores é conduzida pelas experiências e direcionada pela vontade (às vezes forte, às vezes fraca) do sujeito. Outra opção seria falar sobre os valores que devem ser concretizados pela via política.
Entre todos, gostaria de falar da manifestação dos valores, do produto das ações. Pelos seus frutos os conhecereis. Não quero tratar da hipocrisia, dos valores humanos, nem das verdades do mundo. Quero apenas falar das conseqüências.
Nós vivemos na sociedade que impõe certos preceitos indiscutíveis, que balizariam as relações sociais pautando-se na pluralidade dos valores. Nesse contexto temos a abominação da censura e do preconceito, ao passo que liberdade e tolerância viram palavras de ordem. Um grupo de palavras assume o que seria o mal e outro o que seria o bem. E isso sem qualquer reflexão sobre o fato de que a malícia se traveste de virtude e que a retidão redime aquilo que se propôs ao mal. A realidade é mais complexa do que dois pólos facilmente identificáveis. E não interessa aqui saber quais são os valores universais (isso caso haja algum), pois isso vale para os valores que cada um elege para si, quando se vai medir a realidade com seu metro.
A hierarquia dos valores de cada um leva cada pessoa a tomar suas próprias decisões. O valor entendido nesse sentido amplo seria algo subjacente à definição dos valores econômicos, por exemplo. Aquilo que eu quero concretizado me serve de parâmetro para minhas ações futuras e para as ações passadas minhas e dos outros. E não adianta nos eximirmos de julgar. Pois cada afirmação é um julgamento. O juízo é a faculdade da mente, pois ele decide sobre a verdade. E quais são os critérios dignos de serem usados para se julgar?
Se vemos uma ocorrência de algo que fere nossos valores e ela quase sempre está acompanhada de um fenômeno, fazemos mal em tentarmos nos prevenir quando o fenômeno nos aparece? Pois a sociedade nos repreende, e já tem um rótulo pronto para isso: preconceito. Se um físico nos adianta que a trajetória do corpo seguirá a função f, de acordo com os parâmetros x, y e z, devemos acusá-lo de preconceito? Ora, a ciência é um modelo, ela não fala a verdade sobre a realidade, mas ela a descreve de acordo com a utilidade. Se um físico pode tentar prever e cometer um erro na previsão, por que nós também não podemos?
E o princípio que se vê em Mateus 7, 20 é que os produtos das ações indicam a que elas se prestam. Eu escolhi esse princípio para reger os meus juízos da realidade. Muitos podem dizer que não, que não é válido. E é o que de fato vejo nos dias como hoje.
Se aquele velhinho olhava para a pessoa que se tatuava e previa algo de ruim nos costumes dele, porque o desprezo e taxá-lo logo de preconceituoso? Ou se ele se depara um um cara de dreadlock, fazendo apologia da liberação da maconha, por que não se pode concluir algo a mais? Em português há o termo cosmovisão, que é o equivalente do que há em alemão (e lá ele foi bastante desenvolvido) que é Weltanschauung. A cosmovisão seria a reunião do fim para o mundo numa única visão, o que é o caso das religiões, por exemplo. Na minha opinião, eu advogo que cada pessoa forma sua cosmovisão durante a sua vida, que não é nada mais que os valores (numa tentativa de reduzir as contradições que se vê no mundo) que apresentam um certo padrão em julgar o mundo e em fazer escolhas.
E será tanta coincidência algumas coisas andarem mais juntas que outras? A nossa sociedade quer separar duas esferas para a vida:
- A esfera das nossas relações mediadas pelas formalidades (normalmente impostas pelas normas estatais), em que o simples cumprimento dos requisitos seria a grande ação cívica.
- A esfera pessoal, em que cada pessoa tem o legítimo direito de fazer as coisas mais macabras ou estranhas, desde que isso não afete as formalidades da outra esfera. Aliás, a outra esfera não se intromete aqui justamente para ser plural e garantir o gozo mais arbitrário que se queira.
Bem separadas essas esferas, alguns nos forçam a acreditar que devemos julgar a realidade com a devida separação. Mas se esquecem que não há julgamento possível: não poderemos falar nada sobre as decisões pessoais (já que isso é uma ofensa à pluralidade) e, ao mesmo tempo, o julgamento das formalidades estatais é a priori, já que o valor já está impresso na lei. Ai de quem quiser misturar essas duas esferas!
Nós vemos essa questão no momento da decisão de como educar os filhos: se privamos eles de alguma coisa estamos praticando censura (a palavra maldita). Um exemplo é quando se protegem as crianças da pornografia. Aqui chego ao que motivou o texto, na questão política. E, obviamente, não parecerei imparcial. Nessas eleições de 2010 tivemos hipocrisia? Sim. Tivemos mentira? Sim. De quais lado? De todos. Dentro das formalidades do estado, não se proíbe mentir, não se proíbe trapacear: enfim, as eleições são decididas pelo discurso melhor preparado (aí entra o marketing). E aí entra uma outra discussão (que não será abordada aqui) sobre o sistema jurídico atual, que funciona mecanicamente com regras previas rígidas, ao passo que antes julgava-se pela moral e com regras menos explícitas (mas muitas vezes pecando-se pela arbitrariedade). Mas essa é mais uma discussão que decorre da nossa sociedade mecanicista, burocrática. Mintzberg que o confirme.
Muitas coisas foram escondidas. Uma delas é o passado dos partidos. Obviamente que estou falando de Dilma, embora Serra estivesse do mesmo lado, entretanto de forma mais branda. O próprio passado do PT (e sua cúpula) é uma coisa que não se toca muito no assunto. O próprio caso de Celso Daniel e as diversas mortes ao redor do caso não espantou ninguém. Quando estava junta dos seus, Dilma se orgulhava de estar do lado que pegou em armas contra a ditadura, mas na hora do horário eleitoral o PT não enfocava essa parte.
Outra versão da mesma frase bíblica é que a boca fala do que abunda no coração (Mt 12, 34). A fala é o fruto do desejo do coração. E o que deseja o PT? Ou mesmo o FHC do PSDB (o que falou para esquecer o que havia esquecido)? Na época deles pipocavam regimes baseados no marxismo, espalhando o genocídio contra opinião e classes pelo mundo. É para essa "democracia" que lutaram os terroristas no Brasil. Aí alguém me dirá: "mas as pessoas mudam, temos que dar o nosso voto de confiança, todos merecem uma segunda chance, afinal o Brasil é o país da tolerância". Isso é verdade, mas tem uma precondição.
A evolução das nossas idéias passa junto da nossa biografia. Daí a utilidade em se estudar história, já que é a biografia do mundo. Qual é o trajeto das idéias desse pessoal de esquerda? Eles mudaram? Não há mais o ranço, a práxis assassina contra a dissidência ideológica? Se sim, onde está o discurso que renega a opinião passada, do pecador que se arrepende de seus pecados? E onde estão os indícios na biografia de tal mudança? Ora, quem diz que essas filosofias estão mortas e superadas, que tal dar uma passadinha nos departamentos de humanas da USP, ou notar qual é o estilo de discurso das greves (anuais?). Lá se pode ver jornais como "Aliança da Juventude Revolucionária" (será uma revolução de idéias?) e que as chapas acadêmicas são dominadas por partidos como PCO e PSTU - aqueles que o brasileiro médio vai falar que são uns doidos - numa política acadêmica que supera a sujeira da nossa política nacional (basta ver como ocorre uma votação numa assembléia na FFLCH).
Os sinais estão todos aí. Mas parece que está proibido fazer as relações. Discurso rançoso, as mesmas incitações para conflitos entre classes (negros x brancos; pobre x rico; homossexual x homofóbico etc.), greves sem fim, discurso em tom agressivo (pra ganhar no grito)... Há muitos exemplos, mas só nos permitem analisá-los como fatos esparsos e independentes.
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